sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Inteligência Econômica a serviço do país

Ontem publiquei um texto no portal Meta Análise que reproduzo a seguir. Falo sobre o conceito/prática de inteligência econômica. O mundo árabe está em movimento. Grandes oportunidades podem surgir com as mudanças. Requer acompanhar e antecipar.

Os últimos eventos nos países árabes são oportunos para falar um pouco do conceito de Inteligência Econômica. Qual o contexto? Seguida à imolação do jovem tunisiano Mohammed Bouazizi que ateou fogo ao próprio corpo no dia em que o impediram de exercer sua atividade de vendedor abulante, protestos populares forçaram a saída do então presidente Ben Ali.

Drástico, rápido e inesperado. Inesperado? Ao menos um governo aparentemente antecipou esta saída. Declarações do serviço diplomático dos EUA destacavam sua inquietação quanto ao governo de Ben Ali. O governo americano posicionava-se a favor da população tunisiana. Ben Ali deixou a presidência da Tunísia dias depois. É possível imaginar que o governo americano estivesse apoiado por um adequado serviço de Inteligência Econômica que lhe fornecesse informação e conhecimento que permitiria antecipar eventos e consequências políticas e sociais na Tunísia. Não teria sido prudente se posicionar contra o governo se não estivesse antecipando os acontecimento.

Segundo Michaelle Aviguel da Frankfurter Allgemeine Zeitung, Hillary Clinton, desde o início dos confrontos populares com o regime do ex-presidente, colocou-se em uma posição firme de critica ao regime autoritário. É de se supor que estivesse bem informada sobre o que iria acontecer. E o governo de Ben Ali caiu.

O que significa Inteligência Econômica? Alain Juillet, ex-responsável por Inteligência Econômica do Governo francês, definiu assim: “Consiste no domínio e na proteção de informação estratégica para todo agente econômico. Tem a tripla finalidade a competitividade da malha industrial [do país], a segurança da economia e das empresas e fortalecimento da influência do nosso país [da França no caso]”.

Ainda segundo Alain Juillet, é uma resposta cultural e operacional às questões ligadas à globalização e à sociedade da informação.

Mas nem sempre os governos estão bem amparados por um serviço eficaz de Inteligência Econômica. O muro de Berlim caiu em 1989 e ninguém previu. Nenhum governo se antecipou.

No caso da Tunísia, a postura firme americana antes da saída de Ben Ali contrastou, segundo o jornalista Phillippe Meyer da France Culture, com a de alguns governos do velho continente que não viram chegar as mudanças e ficaram perplexos e com postura desorientada em relação à saída do ex-presidente. Certa autoridade de governo, segundo Phillippe Meyer, dias antes de sua saída, chegara a afirmar que o que se dizia do regime de Ben Ali era muito exagerado. Claramente alguns governos foram pegos de surpresa com sua saída.

Vê-se a diferença entre um governo bem suportado por um processo de Inteligência Econômica que monitora o ambiente internacional e antecipa movimentos que podem gerar prejuízos e também oportunidades ao país e um governo que se mantêm ignorando os sinais de mudança, continuando a agir como se os movimentos não estivessem acontecendo.

Evidentemente, é muito delicado um governo dar apoio ou ir contra um governo estrangeiro. Tem consequências políticas e econômicas evidentes. Da mesma maneira, os EUA assumiram uma postura clara, pressionando, no caso do Egito, reformas, que não julgavam suficientes (Le Monde 9, fevereiro de 2011). São posturas também possivelmente bem apoiadas por um serviço de Inteligência Econômica.

É verdade que o serviço de Inteligência dos EUA nem sempre obteve o sucesso que gostaria, como no caso do triste atentado contra o World Trade Center em 2001, que pegou todos de surpresa. Apesar de existirem informações a respeito (segundo publicou Nicolas Lesca, pesquisador da Universidade de Grenoble em 2002), faltou capacidade de interpretação dos sinais.

“O problema de monitoramento, isto é, a coleta, análise e difusão de informação publicada ou informal, está no centro de um dispositivo de IE”, segundo Alain Juillet. Trata-se de utilizar de maneira ética e legal informação disponível a serviço de governos, Estados, comunidades locais. A serviço destes e de seus agentes econômicos, empresas, sociedade.

A IE tem como objetivo adquirir e proteger informação e de exercer influência. No último caso, influência política e econômica, por exemplo, de apoio ao desenvolvimento e conquista de mercados pelas empresas às quais a IE está a serviço, ajudar na introdução de normas, valores e idéias gerais favoráveis ao país em questão.

Nos últimos anos, na França a discussão sobre inteligência econômica tem ganhado espaço. A ADVS França colocou em seu site alguns textos a respeito do conceito. Difere um pouco do escopo da inteligência competitiva, estratégica, uma vez que envolve ações de inteligência por parte do Estado, com o objetivo de antecipar movimentos externos que possam influenciar as ações de seu país, de suas empresas. É importante ficar claro também que a discussão sobre inteligência econômica, tanto quanto a inteligência competitiva e estratégica deve-se pautar por princípios éticos de uso de informação pública disponível.

Como sempre e como no caso da Tunísia ou do Egito, a informação esteve sempre disponível e muito se destacou a importância das ferramentas de redes sociais no processo que circulou publicamente as informações sobre os movimentos e sua evolução. Como aproveitar esta informação pública é que é o desafio de quem faz Inteligência.


Fernando de Almeida é fundador da ADVS Brasil (www.advsbrasil.com.br), associada à ADVS França, voltada a consultoria e pesquisa em Inteligência Competitiva e Estratégia. É responsável pela Fuld, Gilad, Herring Academy of CI no Brasil, que ministra cursos e emite Certificação - CIP™ em Inteligência Competitiva nos EUA. É coordenador do MBA Inteligência Estratégica da Fipe

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Palestra gratuita via Web com Leonard Fuld

O Leonard Fuld da Academy of CI, parceira da ADVS Brasil irá fazer uma palestra via Web no dia 24 de fevereiro as 12h (horario de Boston). Vejam:

Como as atividades de inteligência competitiva tem se desenvolvido na sua empresa? Crises mundiais, turbulência, como sua área de inteligência tem se saido? Leonard Fuld, membro fundador da Academy of Competitive Intelligence, irá descrever neste Webcast as mudanças ocorridas na atividade de inteligência competitiva nos últimos 5 anos:

- Quais setores de indústria tem mostrado atividades de IC mais fortes ou mais fracos?

- O que evoluiu ou o que decaiu nos programas de IC nesses anos ?

- Infra-estrutura crítica de IC que sua empresa deveria avaliar ?

- O que o futuro promete para a atividade de inteligência competitiva nas grandes corporações?

Inscrições pelo site:

http://www.academyci.com/aci-bin/f.wk?aci.htwebinar.gen

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Pesquisa sobre Inteligência Competitiva

Adrian Alvarez, da Midas Consulting, Argentina e também professor na ADVS/Academy no Brasil, propõe a pesquisa abaixo e convido todos a contribuir: http://www.kwiksurveys.com/online-survey.php?surveyID=KKOKOF_ac98af71

sábado, 18 de setembro de 2010

Inteligência Competitiva: entre o Engenheiro e o Arquiteto

Existe uma só maneira de desenvolver processos de IC na empresa? Não. Primeiro em razão da complexidade, ameaças e riscos percebidos do ambiente competitivo. Empresas que vêem o ambiente como mais estável, tendem a ter um comportamento menos intrusivo, menos ativo em sua busca. Outras percebem o ambiente como mais complexo, arriscado e cheio de oportunidades e ameaças. São mais intensas em atividades de IC.

Normalmente as empresas tem atividades de scanning do ambiente, ainda que não deem este nome a elas, pois tem processos informais ou não estruturados, de coleta, análise e uso estratégico de informação do ambiente. Em especial as pequenas e médias empresas (nos EUA mais de 80% das empresas de grande porte tem processos formais de IC). Mas mesmo que se tenham atividades formais e estruturadas, encontram-se diferentes formas de estrutura e organização para IC nas empresas. Em muitos casos a atividade de IC é suportada por uma área funcional do tipo departamento de inteligência competitiva. Sem novidades até aqui. Mas algumas empresas entendem que não necessariamente áreas formais de inteligência competitiva (departamentos ou área de IC) ou processos sistemáticos (coleta estruturada de informações de mercado), são a solução para elas. Isso porque tem diferentes diferentes pressupostos sobre o ambiente competitivo e diferentes características próprias e de seus executivos.

Por exemplo foi constatado que empresas do setor vestuário na Inglaterra, tinham maneiras completamente diferentes de scanear o ambiente, apesar de estarem em um mesmo setor. O que mudava era sua percepção sobre o ambiente competitivo. Algumas entendiam que processos estruturados de coleta de dados, predominantemente quantitativos eram úteis para o planejamento e previsão de suas ações de produção e de vendas. Outras tinham como base a coleta em fontes informais, em lojas, com representantes de vendas, circulando pelo mercado. Não foi identificado se uma maneira ou outra de escanear o ambiente levava a resultados mais favoráveis e decisões mais bem sucedidas. Mas o que se pode observar é que empresas em um mesmo setor podiam ter percepções diferentes do ambiente competitivo que as levava a achar fazer mais sentido escanear o ambiente de maneira mais ou menos estruturada (estudo apresentado por Daft & Weick).

Primeiro ponto: é preciso respeitar as características da empresa e adaptar um modelo mais adequado ao seu perfil organizacional e pessoal. Existem diferentes características que vão impactar a maneira de fazer inteligência competitiva: infra-estrutura formal, envolvimento das pessoas, cultura organizacional, de inteligência, valores pessoais, percepções e experiências anteriores dos gestores.

Segundo ponto: Para Daft & Weick, que pesquisaram sobre a atividade de scanning do ambiente, a maneira mais ou menos estruturada de fazer inteligência competitiva, será função de dois aspectos distintos como consequência do ponto anterior. 1. Os pressupostos da empresa sobre o ambiente competitivo, se o considera ou não estruturável (se é possível ou não identificar uma estrutura acessível a partir da qual se pode coletar dados estruturados, muitas vezes quantitativos). 2. Sua atitude quanto ao grau de intrusão, ou penetração no ambiente competitivo, isto é, o quão intensamente a empresa vai atrás de informação no ambiente competitivo.

A partir destes dois pontos, é possível identificar quatro tipos de comportamento face ao ambiente competitivo que classifico da seguinte maneira: 1. Quando se leva em conta os pressupostos que a empresa tem do ambiente, esta pode ser classificada como perfil tipo Engenheiro ou tipo Arquiteto. 2. Perfil tipo Contemplador ou tipo Investigador, quando se pensa no grau de intrusão da empresa no ambiente competitivo.

Como se pode comparar o tipo Engenheiro com o tipo Arquiteto e o que cada um obtêm do ambiente competitivo? Não vamos explorar o Contemplador versus Investigador. Entendo que qualquer empresa que assumir uma postura contemplativa face ao ambiente e não ativa, de busca de informação está destinada ao fracasso.

A empresa que exerce a atividade segundo o perfil do Engenheiro, assume o ambiente como estruturável, possível de ser compreendido a partir de uma forma estruturada de obtenção de dados. Considera o ambiente de maneira concreta, possui processos com certo grau de rigidez, mensuráveis, com atividades e etapas claramente estabelecidas. Acredita que as informações estão disponíveis e acessíveis no ambiente e que um processo de coleta estruturada, ou a compra de pesquisas irá trazer-lhe o conhecimento necessário a planejar, a agir. Desenvolve coleta de inteligência, análises racionais, monitoramento e mensurações precisos. Se baseia na lógica, sequência linear de procedimentos internos e externos buscando dados e conclusões claros.

Outro perfil de atividade de inteligência, menos comum no mercado, é o que chamo de perfil tipo Arquiteto. O perfil “Arquiteto” que orienta a atividade de inteligência em algumas empresas, considera o ambiente competitivo como pouco estruturável e entende que ferramentas estruturadas de coleta de dados quantititativos não lhe permitem antecipar os movimentos competitivos. Seu esforço se desenvolve a partir da busca de informações predominantemente qualitativas. Penetra no ambiente à busca de perspectivas e de oportunidades de criar a partir do que interpreta. Molda assim o ambiente a partir de suas interpretações. Sua postura está mais próxima da invenção do ambiente do que organização das informações que coleta do ambiente. Criação de sentido, criatividade são melhores analogias. Comparando novamente os dois perfis, o Arquiteto pode ser contrastado ao perfil do Engenheiro. O Arquiteto se aproxima do perfil de um autor que cria, de um inventor. O Engenheiro se aproxima do comportamento de ator, que é um interpretador de uma história já criada.

Para o ator, a história já está escrita no texto desenvolvido pelo autor. Para a área de inteligência de tipo Engenheiro, a história já está inscrita no ambiente. Basta ter os instrumentos adequados de leitura para decodificá-la, basta saber ler. Para a área de inteligência tipo Arquiteto, a história não está escrita. O futuro que se pode antecipar a partir das informações que se obtêm não é absoluto e previsível, não tem resposta evidente e concreta. É fruto da criação não só da empresa, mas dos players que atuam no ambiente. É incerto, é moldado por percepções e perspectivas, não é absolutamente previsível. O ambiente do Arquiteto envolve incerteza, mas envolve a possibilidade de criar e gerar oportunidades. O Arquiteto foge dos pressupostos que reduzem a capacidade de atuação a horizontes limitados. Horizontes que a área de inteligência tipo Engenheiro, considera como já determinados. A área de inteligência tipo Arquiteto, explora novos comportamentos, cria seu próprio ambiente, experimenta, testa, estimula o ambiente. Cria mercados baseados no que pensa poder vender e não esperam a demanda surgir. Uma empresa tipo Apple cria um iPad, cria uma demanda, não espera ela surgir.

A empresa Engenheiro considera o ambiente estruturado e com as respostas já inscritas no ambiente. Usa plataformas estruturadas de coleta: pesquisa de mercado, análise de tendências, previsões na identificação de ameaças e oportunidades. Acompanha as tendências da concorrência, projeta seus movimentos futuros a partir do movimento passado.

Claro que ambos os perfis descritos são perfis ideais, isto é não existe área de inteligência que se enquadra de maneira absoluta em um ou outro perfil. São dois perfis extremos e normalmente vemos as empresas penderem mais para um lado ou para o outro. Penso que uma empresa como a Apple e sua equipe de inteligência, penda mais para o perfil Arquiteto. Mas todas tem um ou outro perfil em maior intensidade. É mais comum ver empresas atualmente, mais próximas do perfil Engenheiro e um número menor de empresas mais próximas do perfil Arquiteto. Menos criativas, mais organizadoras de informação e geradoras de gráficos de tendências a partir dos quais fazem o que chamam de relatórios de análise.

Existe um perfil mais adequado que outro? Entendo que tal como na vida das empresas de construção, um não pode abrir mão do outro. Arquitetos que fogem muito da realidade correm o risco de criar projetos inexecutáveis. Os Engenheiros vem ajudá-los a manter-se mais realistas. E o conjunto produz equilíbrio entre estrutura e criatividade. Tal como deve ser a atividade de inteligência competitiva na empresa. Um equilíbrio entre a estrutura do Engenheiro e a criatividade do Arquiteto. Nem muito para um lado, nem para o outro.

Publicado originalmente no portal Meta Análise em 16 de setembro de 2010 - Inteligência Competitiva: entre o Engenheiro e o Arquiteto http://t.co/V1sh7ik